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Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

a controversa maresia no sapo

De malas e bagagens para o SAPO! Um ganda beijão à Jonas, à Cláudia e à equipa dos blogs do SAPO em geral, pois foram de uma paciência infinita: ele era o cabeçalho um niquinho mais acima, a letra um tudo nada mais pequena, a sidebar assim e depois afinal assado, e mais uma coisa ali a armar ao engraçadinho e o camandro. Pois aquilo está uma maravilha, é o que vos digo. E assim, pertinho de fazer os quatro anos, deixo esta casa para novas e verdejantes paragens (estou em crer). De caminho, um muito obrigado ao blogger que nunca me deixou mal - excepto uma vez logo ao princípio, em que falharam as defesas e alguém me invadiu o blogue para postar uma publicidade nazi muito fraquinha. Bom, fui. Até já.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

I do declare


there were times when I was so lonesome I took some confort there...

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

O que aconteceu depois
pouco importa. Era previsível que o tempo ficasse suspenso e que o tal micro coiso segundo não se esgotasse assim, como na vida. E (já que quiseste saber) a parcela de tempo em que tudo supostamente mudou mantém-se ainda suspensa, como uma lua teimosa, sem saber se há-se minguar ou crescer nem se, ao crescer, vai iluminar as sombras que as pontas mais recônditas no canto dos dedos lançam nas paredes da casa. Um prado de dedos ao vento, para cá e para lá, à espera de que alguém os apanhe na altura certa, os aperte e os misture noutros dedos, debulhando-os. Disse-te que era até ficar só o Amor (a parte que se aproveita), mas não sei se será bem assim. O silêncio que se seguiu infectou os gestos dos envolvidos; espadas que impendem, condicionantes e anátemas, de repente parece que ficou de chuva. No fundo, vontade nenhuma de voltar atrás nem de dar o dito pelo não dito e a certeza de que, cedo ou tarde, o atrevimento (ou a inconsciência, em dependendo do ângulo) dará os seus frutos. No entretanto, arrepiar caminho só para que a rejeição nos pouse leve e nos faça até rir porque já sabíamos, triunfantes com a nossa própria previsibilidade. Não há hipótese porque eu determinei que assim fosse, estava apenas a pôr o destino (agora chamo-o assim) à prova, a queimar os dedos. Sorrimos, encolhemos os ombros, contamos para dentro os mortos e feridos e o tempo retoma enfim a sua marcha (e nós, a nossa). Dos danos colaterais que a explosão que esses dedos (as pontas mais soltas da pele dos dedos, onde mal afloram os sentidos) provocaram, se calhar nunca saberemos.

If you say anything right now, I´ll believe it.
retiro o que disse
O episódio de hoje (do house) foi fabuloso.

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

fica-lhes mal,
aos altos representantes do Estado e de corporações ou classes, virem para os media lançar acusações em abstracto e disparar em todas as direcções, a propósito de escutas ilegais, corrupção ou seja o que for. Isso é conversa de café e, enquanto tal, não devia dar direito a tempo de antena, entrevistas, pressurosos inquéritos criminais nem, muito menos, a explicações detalhadas na Assembleia da República. Uma conversa de café é para ficar confinada à recepção da roda privada de amigos do emissor e não para ser elevada à condição de declaração de Estado. É claro que não se pode pedir a quem acusa que prove tudo o que diz, mas é igualmente inadmissível que se lance atoardas (basicamente, lugares comuns sobre o estado da nação) sem um ponto de partida, ou seja, uma suspeita minimamente fundamentada, baseada em factos ou na ameaça destes. Ao contrário do que muitos pensam, este tipo de declarações não põe o dedo na ferida nem denuncia a coragem ou a irreverência de quem as profere. Geralmente, reflecte apenas a maneira de ser um bocadinho desbocada de alguém que não sabe distinguir o seu egozinho de rei da rua e de dono do bairro, da persona institucional na qual se encontra investida (e da contenção e reflexão redobradas a que tal obriga). E atirar para o ar a ver onde cai, correndo o risco de atingir inocentes mas de, ao menos assim, não chatear directamente nenhum culpado, é mais cobardia que outra coisa. Além daquela questão recorrente que me aflige, como já devem ter reparado, que é a da falta de educação, da basezinha, do cházinho. Uma espécie de débito de personalidade que faz com que, quando recebemos uma fatiazinha de poder para as mãos, a queiramos comer logo toda de uma vez e de boca aberta, para toda a gente ver quem manda no bolo.

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

aquele segundo,
aquele bocadinho de tempo em que o cérebro cai em si e dá a ordem, mas já não é possível aos dedos, às mãos, voltarem para trás; aquele momento em que a ponta do dedo, a ponta mais remota do dedo, a mais afastada do centro da mão; e em que a unha, a parte mais branca da unha, arredondada, polida, arranjada, roída, toca no botão, na tecla que acciona a bomba, o cogumelo alucinado, uma explosão de letras; aquele micro nano pico zepto não sei das quantas, em que as falanges se estendem, desobedientes, e a linha da vida se desdobra e se alisa, no intuito de mais uma vez se cumprir. Aquela fracção cósmica antes da qual ainda achamos que tudo é possível e em que nos percorre o fervor religioso da verdade, porque não, porque não dizer tudo. E, agarrada à cauda daquele momento como restos de nebulosas, a brusca percepção do que acabámos de permitir; a consciência de qualquer coisa de irreversível, de uma flor arrancada à terra, da onda que nunca mais aquela, da gaivota que acabou de passar num canto impossível do céu, dos verbos para sempre conjugados. Quando o que queremos é agarrar no mundo e empurrá-lo para trás, reverter-lhe a rotação, e vermos a verdade recolher-se ao ventre de onde saiu, puta que a pariu.
não sejam animais

Um alerta de Paulo Pinto Mascarenhas no blogue da Atlântico.

Adenda: ler também os comentários ao post, reveladores.

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

Depois de uma carreira a solo em que passaram a actuar com diferentes nomes artísticos por forma a recuperarem alguma da dignidade perdida; e depois de a dita carreira ter sido prontamente gorada por uma brigada da ASAE que insistiu em cheirar e inspeccionar os títulos de alguns dos hits prometidos,

os 2DJ's do C******! juntaram-se de novo e regressam à casa que os viu nascer e rapidamente os entregou à adopção:

sábado, 26 de janeiro, 00.30. No Napron, r.da Barroca 111

LUZ! COR! RAPARIGAS! RAPAZES! TÁXIS PARA CASA!

Eles têm carisma e sofisticação. Agora, mais uma vez, vão tentar provar que também conseguem por uns discos!
Não faltem a mais uma desesperada tentativa!

[os 2 Dj's do C******! são Nuno Miguel Guedes e Zé Diogo Quintela (nomes registados)]

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

(lembro-me de que gramava com o prognatismo do lionel, o poncho da dionne, os soquetes do michael, os gritinhos da cindy, as cabeleiras dos pretos em geral e os bigodes dos brancos em particular, só para chegar a bruce springsteen, de olhos fechados e a transpirar cama por todos os lados. nessas alturas, a fome no mundo era a menor das minhas preocupações.)

Terça-feira, Janeiro 22, 2008

Uma coisa engraçada que concluo da recolha de testemunhos vários: já repararam que os homens não respondem por aí além aos nossos espirituosos mails? Quantas de nós não viram já as suas afectuosas mensagens caírem no saco roto do lixo virtual ou do centro de mensagens da plebe masculina? Estou em crer que isto é porque eles nos temem um bocadinho. A sério. Medo. Miúfa. Cagacinho. A maior parte dos homens acha que não nos compreende, a nós mulheres, e que está a milhas de conseguir prever as nossas absurdas reacções, por isso tem terror de nos enviar sinais que possamos interpretar de forma errada. A mensagem mais inocente por nós enviada é amiúde entendida como provocação/convite/estímulo/rejeição/desagrado (riscar o que não interessa), pelo que (pensam eles) o melhor é não dizer nada para não acicatar o animal. Aliás, para os homens, mulheres e inocência é uma contradição nos termos. Um espécime médio masculino, quando recebe um mail de uma mulher, descodifica o texto, analisa sumariamente os potenciais riscos e, se puder, arruma a coisa a um canto. Ou porque acha mesmo que está tudo dito e que qualquer resposta da sua parte seria desnecessária, ou porque o que quer que dissesse poderia induzi-la em erro e depois teria de ficar com ela à perna uma data de tempo, a entupir-lhe o correio, o telemóvel, a vida. É que quase todos os homens se relacionam com as mulheres que vão conhecendo com uma cautela e caldos de galinha que lhes advém de, em determinada altura das suas vidas, terem ficado traumatizados com o assédio bruto de uma fêmea descompensada. O que faz com que todas as mulheres com quem mantêm uma relação a respeitosa distância, sejam malucas em potência (pois quanto às que lhes estão perto, têm a certeza de que o são). Nós corremos poucos riscos de, perante um simples convite para um café, um deles nos responder de volta, “Sim, também estou louco por ti”. O mais certo é eles pensarem que, perante o nosso convite, o que queremos dizer é que estamos loucas por eles. Ou, pior ainda, que sabemos que eles estão loucos por nós. Mas, na verdade, os homens até têm a sua razão. Nós não nos ensaiamos muito para dispararmos entre dois sorvos de delta platina que sim, estamos loucas por eles, se estivermos na altura exacta do TPM (antes, durante ou depois, consoante o mapa hormonal de cada uma); só para desdizermos tudo uma semana depois. E, quando recebemos uma mensagem deles (ou de uma amiga ou mesmo do enlarge you penis), ficamos derramadinhas para responder, com os dedinhos logo a fibrilar em direcção ao teclado. Esta compulsão é a mesma que nos faz responder aos SMS's no meio de um cruzamento e sair do banho a correr quando o telefone toca. Porque nós adoramos responder, dar troco, retorquir: está na nossa natureza. Repugna-nos deixar os interlocutores sem resposta, adoramos alimentar o fogacho da converseta e somos capazes de passar horas naquela marmelada do desliga tu!, não, desliga tu! - e isto sem estarmos apaixonadas por ninguém. Até nos damos ao trabalho de confabular (ai o que nós adoramos confabular!) e de responder aos silêncios deles, tipo, não me respondeste porque isto, mas eu sei que querias dizer aquilo, sendo que o que eu acho sobre o assunto é aqueloutro. Chegamos a ficar a escrevinhar sozinhas enquanto eles se limitam a monossílabos que rezam para que soem ao menor comprometimento possível. É claro que, por esta altura, já muitas de vós estareis a pensar, ah mas eu não sou nada assim, para o que adianto muito rapidamente uma razão: se não sentem a compulsão de correr para atender, responder, porem-se a adivinhar ou retorquir em geral, talvez isso seja ou progesterona a menos ou testosterona a mais (e se calhar até um bocadinho de buço, não?). Há uma outra hipótese, claro: a de a falta de resposta ser apenas o resultado da falta de educação - sendo que esta atravessa qualquer género e manifesta-se de idêntica e desagradável forma em pipis e pilinhas.

esta quarta temporada do house
é uma seca. Talvez devesse ter ficado pela terceira, incólume e brilhante.

Adenda: entretanto, zapo para o nip tuck e a mulher do médico (feio) está a comer um anão (juro). Ora aqui está uma série que não deveria ter passado da primeira temporada, credo.

Domingo, Janeiro 20, 2008

- Where's your grandpa right now?
- In the trunk of our car.

Um fim de tarde tarde de domingo passada a ver Little Miss Sunshine pela primeira vez. Como foi possível só agora ter dado conta desta pequena maravilha?

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

atonement

Li há alguns anos o romance Expiação, para mim o melhor de Ian McEwan. Ainda não vi o filme, mas não duvido de que se mostre inferior ao livro, como tem acontecido com a adaptação para o cinema das obras de McEwan. Existe sempre nas personagens dele uma filigrana interior tão intrincada, que é dificil percebê-las na tela, mesmo que num contexto perfeito de imagens, diálogos e ambientes. Do que me lembro, no entanto, Keira Nightley parece-me perfeita para o papel de Cecília.

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

benfica

Um jogador com nome de infecção mortal não me parece nada bom agouro.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

fartinha até à ponta dos cabelos

Já não posso ouvir falar da ASAE. Nem de ler posts, notícias ou receber mails com piadolas giras sobre a ASAE. É que já nem é só uma questão de higiene: será que esta gente não percebe que, ao permitirem que a D. Graciete venda os rissóis de camarão feitos na cozinha do T1 enquanto limpa o ranho do miúdo, para aquele restaurante grande da esquina, recebendo por debaixo da mesa e sem declarar um avo, está a prejudicar e a enganar todas as empresas e particulares licenciados que, taxados à bruta em todo o processo de fabricação, fazem também eles rissóis para revenda? Será que os que ficam tristes porque o Sr. Tomé já não faz o cozido com couves da sua horta, não percebem que os outros, os que produzem e vendem couves, pagam até para as transportarem? Será que aqueles que tanto se insurgem contra a fiscalização das actividades dita tradicionais e que, presumo, paguem impostos (e se sintam tão lixados com isso como eu), não percebam que muitas delas mais não são do que formas de fuga ao fisco que prejudicam quem não foge (uma vez que tal fuga é um ónus que acaba por recair sobre todos?). Que, por exemplo, se justificará a apreensão de jóias numa loja como a CARTIER, que não está licenciada como joalharia, e que as joalharias pagam mais (são portanto especialmente taxadas) para que possam precisamente vender jóias? E que muitas das alegadas tipicidades portuguesas, como a da tão badalada Ginginha, mais não revelam do que a preguiça e a badalhoquice dos proprietários e o desrespeito pelos clientes? E mais: tal como disse aqui, grande parte dos boatos que correm e que tanta tinta fizeram gastar, são isso mesmo: boatos. Para as bolas de Berlim, colheres de pau, utensílios nas esplanadas, castanhas em jornal, pão para açorda, etc., vão aqui, aos esclarecimentos. E deixem lá os homens trabalhar, porra.

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

dica jurídica da semana (III)

Não sei se sabem, mas a detenção de armas brancas que não tenham uma aplicação definida e concreta, é crime. Tal como o é, a detenção de instrumentos construídos exclusivamente com o fim de serem usados como arma de agressão (dizem eles). Portanto, se andarem no carro com um canivete suíço ou uma ponta-e-mola só porque sim, ou um bastão de baseball ou uma perna de mesa (sendo que por acaso não fazem desporto e até comem no chão), arriscam-se a uma pena de prisão no máximo de três anos ou multa até 360 dias (o mínimo são 10 euros/dia). Solução? Não transportar nada que possa ser usado como arma de agressão e para cuja posse não tenham uma explicação plausível. Dizer que a moca é para se defenderem de uns ciganos que vos costumam fazer esperas ou que o canivete é para cortar a fruta, lamento, mas não vale: a tal ponto chega a absurda amplitude do conceito legal.

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

há qualquer coisa no obama
que, francamente, não, obrigada.

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

telejornais

Ele é transfega para aqui, transfega para acolá.

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

Era uma vez um casal de coelhos anões comprados no centro comercial para alegria de uma aniversariante adolescente. Acontece que o ditoso casal, farto do stress da cidade, migrou para o campo, para uma cas..., perdão, para uma gaiola maior. Dotados de um desejo de liberdade e uma enorme visão de futuro, escavaram túneis, terra adentro e abaixo, muitos túneis: vasos comunicantes onde procriaram e criaram cidades, com esquadras de polícia, postos de correio, McDonalds, centros de saúde e (imagino que) muitas creches. Porque eles, os filhos, e os filhos dos filhos deles, desataram a procriar à doida. Até que os donos começaram a aperceber-se de uma realidade: os coelhinhos anões, abençoados, fodiam que nem coelhos. E não havia doenças súbitas nem epidemias raras que dizimassem o excesso e permitissem algum controlo populacional. Então, os donos dos coelhos, perante a evidência malthusiana deste regabofe procriativo, resolveram distribuir pela população (de preferência, a vegetariana) coelhinhos anões, filhos. Que são uma coisa linda, como podem ver.

Propostas de adopção para vieiradomar@gmail.com (e ainda poupam 50 aéreos, que é o que custam nos centros comerciais).

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

Moi qui criait famine et toi qui posais nue

tabaco

Li a lei. Primeira impressão: como quase todos os diplomas que emanam da nossa Assembleia da República, vem com erros de sintaxe, próprios de quem escreve mal em português. Segunda: contém contradições e artigos cuja estatuição se repete, o que dificultará a sua interpretação. Terceira: permite concluir que é permitido fumar nos estabelecimentos de restauração inferiores a 100 metros - e no estabelecimento todo!, desde que este disponha de dispositivo de ventilação com extracção para o exterior - portanto, façam lá a porcaria do buraco, instalem a ventoinha e não chateiem mais nem se façam de vítimas. Quarta: a ridícula imposição de dísticos para sim, para não e para talvez quem sabe um dia, que têm de ser conformes ao modelo blablablá, constante do anexo 1, iadaiada à presente lei, significa que alguém (leia-se: um bimbo qualquer dono de uma empresa produtora de dísticos e primo de algum deputado do PS) vai enfiar ao bolso muitos milhões. Quinta: o montante absurdo das coimas, que reflecte a absoluta incapacidade de o legislador português entender que, por muito louvável que seja a sua intenção, não se pode (ou não se deve) mudar de um dia para o outro o status quo e o modus operandi de uma sociedade inteira, através da ameaça com uma punição desadequada ao acto (ainda no outro dia um alemão que conheci em Stuttgart e a viver em Oeiras me dizia que adorava viver em Portugal porque este era, entre outras coisas, “o paraíso dos fumadores”). Sexta: aquela advertência expressa de os privados deverem chamar as autoridades para lavrarem “o respectivo auto de notícia” e de os utentes também se poderem queixar e pedir o livro de reclamações, é desnecessária (mas nós não podíamos já fazer isso perante qualquer outra infracção?) e dela emanam uns certos eflúvios persecutórios e pidescos que me são francamente desagradáveis. Resumindo: uma lei mal redigida que pretende regulamentar à estúpida e através da proibição total uma situação que, até há uns dias atrás, era um perfeito regabofe (e em que, por exemplo, nos centros de saúde, os velhos cuspiam o catarro dos definitivos para cima das grávidas). Mas na verdade o que interessa é que alguém ganhe com o assunto, como sempre acontece com estas leis que pretendem regular ex novo todo um sector da sociedade. E, neste caso, assim de uma forma óbvia e à primeira vista, ganha portanto o gajo dos dísticos mas, xacáver, também os gajos dos “laboratórios de ensaio” acreditados pelo IPAC, que vão medir o teor de nicotina dos cigarros, e - helás! - todos os que vão compor o “grupo técnico consultivo” criado pela Direcção-Geral de Saúde para colaborar na definição e implementação de programas quaquaquá (basicamente, uma rave de tachos à espera de acontecer).

Nota: não fumo, não gosto que me fumem para cima nem para cima dos meus filhos e acho que se impunha uma lei proibitiva e defensora dos direitos dos não-fumadores. Mas também acho que a sociedade civil (e eu, como membro dela) foi conviente com ou, pelo menos, aceitou de forma demasiado passiva e durante demasiado tempo um certo estado de coisas, para pretender vir agora, de um dia para o outro, dar caça ao bicho-fumador com esta sanha toda e por meio de uma converseta legal que lembra os tempos da outra senhora.

agora está na moda:

toda a gente enche a boca com a palavra "tradição". Mas a "tradição" pode ser uma bela merda.

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

balanço

2007 não foi um ano bom. Aliás, 2006 já não o fora. Pensando bem, há dois anos que vivo num limbo de afectos e de hesitações profissionais, com algumas dores e uma certa imprevisibilidade à mistura. Acidentes, de percurso e não só, doenças, confrontos, desilusões. Nada disto interessa ao blogue, como é óbvio. Dizem que o sofrimento faz crescer, mas isso é uma grande treta: esta ideia (um mero mecanismo de compensação) é uma muleta, como deus, que nos ajuda a suportar a bordoada e a ultrapassar os estragos. A dor não nos amadurece; antes, torna-nos mais pungentes as fragilidades e inseguranças, definindo a carvão grosso o nosso sentido de mortalidade. Não seguimos em frente por causa da dor; seguimos em frente apesar dela. O que nos faz maiores e mais lúcidos, o que nos empurra pelas costas, é o amor, isso sim. Neste início de ano carrego comigo várias pendências, por isso não saltei da cadeira e aldrabei nas passas. Não vale a pena grandes resoluções, quando por dentro hesitamos no caminho e nos encruzilhamos o futuro. Alimento obviamente a esperança de que 2008 seja um ano melhor que os anteriores – o que também não será difícil. Quanto mais seja, porque mais um ano significa mais dias, semanas e meses, despejados por cima dos anteriores: o tempo em camadas sucessivas ajuda ao esquecimento. Chegarei ao momento de saber que, nestes dois péssimos anos, felizmente nada aprendi; e, com um bocado de sorte, recuperarei as franjas de uma certa inocência perdida e constatarei que, à beira dos quarenta, continuo a miúda sardenta e de joelhos esfolados que sempre fui: barulhenta, perdulária, mimada e meio maluca e inconsciente, rodeada de amor e de coisas boas. No fundo, é isto que desejo para todos: a medida certa de loucura e inocência, e a desmesura do amor. Rasgos de felicidade, enfim. Um Bom Ano.

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Em tempos, o maradona foi-me apresentado e tenho ideia de que chegámos a beber umas cervejas num bar irlandês lá para o Cais do Sodré. Depois de feito o reconhecimento e de me situar devidamente no universo blogoesférico, o Maradona, entre dois goles, proferiu mais ou menos a seguinte frase: A única coisa que li de ti foi aquilo da Fátima Felgueiras. Fartei-me de rir ali mesmo. O maradona é uma das poucas pessoas que conheço que tem o dom de fazer rir aqueles de quem fala mal e até mesmo os que pura e simplesmente ofende. Ele é tão bom, que os totós como nós não têm outra hipótese se não achar-lhe, sistematicamente, graça. Presumo que exista também por ali uma dose de loucura não despicienda (embora por confirmar). Isto para dizer, claro, que o maradona foi o meu melhor blogger de 2007. E mesmo sabendo de antemão que vou ser olimpicamente ignorada (nunca mais escrevi sobre a Fátima Felgueiras), aconselhava-lhe, no entanto, um bocadinho mais de calcário dolomítico nas hortênsias, que aquele roxo já só se usa nos cachecóis.

Domingo, Dezembro 30, 2007

todos os anos,
a feira de Novembro aqui na santa terrinha onde me encontro vem acoplada de uma excrescência: uma miserável tenda de circo, rodeada de jaulas fétidas e lamacentas, onde animais de todos os tipos e latitudes, desde camelos a elefantes e tigres, despojados de espaço, saúde e dignidade, vegetam tristemente. O circo com animais selvagens é um espectáculo medieval, cruel e degradante, e esconde todo o tipo de sevícias contra os bichos, que mereciam ter sido deixados na paz do senhor lá no seu habitat natural, em vez de sujeitos a um mimetismo forçado e ridículo para gáudio de umas centenas de labregos que riem muito, muito, quando a macaca levanta o saiote, o elefante diz adeus com a tromba ou a morsa bate palmas. Temos que defender estes animais, porque eles não o podem fazer sozinhos - é tão simples quanto isto. Os direitos dos animais, fomos nós, seres humanos, que os criámos, porque somos civilizados e percebemos que eles são criaturas em desvantagem que têm de ser protegidas, como as crianças ou os deficientes. Por isso, quando a violação desses direitos é tão flagrante que nos entra pelos olhos dentro, como é o caso, temos mais é que assinar petições e levá-las à assembleia, fazer muito barulho, indignarmo-nos publicamente, denunciarmos, cuspirmos na cara dos chen e dos cardinalis deste mundo e recusarmo-nos a servir-lhes bicas nos cafés. Mas, mais do que isso, temos todos de deixar de ir ao circo, cortando de vez com o seu sustento até serem obrigados a procurar trabalho nas obras. E temos também de ensinar aos nossos miúdos que aquilo não é diversão coisa nenhuma, para que nas próximas gerações já não seja preciso proibir nada, porque a coisa entretanto morreu de morte natural. E que eles saibam que existe uma hierarquia de seres humanos, sendo que os que maltratam animais estão na base da pirâmide.
Para ataques incontroláveis de fúria ou de choro, consoante o estado de espírito, vão aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.

E, já que estamos no tema, aqui fica uma homenagem à Lucky (que se foi embora neste Natal), a única cadelinha que conheço que dedicou a sua vida a criar ninhadas sucessivas de gatinhos órfãos. Espero que aí no ceú dos cães onde te encontras, minha querida, haja muitas galinhas para perseguires e seres feliz.

Sábado, Dezembro 29, 2007

les miserables

No telejornal da SIC, repórteres acompanham a Brigada de Trânsito e constatam in loco a prática de várias infracções por parte de automobilistas apanhados em flagrante. Uma reportagem fraca, porque subjectiva e carregadinha de juízos de valor. A dada altura, é mandado parar um Porsche (pareceu-me um Boxter), de acordo com a repórter, “um carro de alta cilindrada”, “típico de quem quer dar nas vistas”. Uma conclusão desnecessária, assente num juízo dispensável, que pode nem sequer ser verdadeiro. Para além do exibicionismo e da vontade irresponsável de acelerar no meio dos outros, existem inúmeras razões para que alguém - tendo possibilidades de o fazer, claro - compre um carro caro: a segurança, a estética ou o conforto acrescidos, entre outras. Ou então a pura e simples vontade de se passear numa coisa boa - facto que dá, obviamente, prazer à maior parte das pessoas normais. “Dar nas vistas” será apanágio apenas de alguns. A generalização apressada resulta de um preconceito recorrente: o de que quem tem coisas boas só as quer para se exibir perante os outros e não para seu próprio usufruto. É certo que a falta de vergonha, de gosto e de decoro de um certo novo riquismo contribuiu para o preconceito; mas também é verdade que o dito preconceito cresce e se alimenta de um miserabilismo de sinal contrário, invejoso e ressabiado, que também gostava de ter e que, ao reduzir a posse de um objecto bom e belo a um sentimento fútil e mesquinho, pretende diminuir quem tem.

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

benazir

não aponte o dedo
para benazir butho
seu puto
ela está de luto
pela morte do pai
não aponte o dedo
para benazir
esse dedo em riste
esse medo triste
é você
benazir resiste
o olho que existe
é o que vê
benazir,

Chico César

os portugueses têm um comportamento anormal dentro dos aviões:
não só desatam a bater palmas no fim de cada aterragem, como se tivessem acabado de assistir a um número de circo, como, assim que o avião toca no chão, se levantam imediatamente do lugar e desatam a abrir as bagageiras, atafulhando-se com as muitas malas e sacos que, desconfiados, se recusaram a enviar para o porão. É que de nada adianta o please remain seated: ainda com o avião em processo de travagem, os flaps em esforço, e é vê-los a tropeçarem uns nos outros em desequilíbrio, a puxarem a bagagem para baixo enquanto ligam à fuçanga os telemóveis, na pressa de dizerem, muito alto, que já chegaram e que estão vivos. Se tivermos o azar de viajar com eles numa low cost na véspera de Natal, da Alemanha para Portugal, então, temos um bónus : o de os ver, em especial aos emigras de segunda geração (são sempre os piores, os da segunda geração, seja que tipo de emigras forem) a serem corridos pela tripulação, exasperada, por terem fumado nas casas de banho e ligado os telemóveis ainda no ar. Mortifica-me, a cada vez que saio e depois regresso, o retorno à falta de civismo, de nível, de cultura e do conhecimento mínimo das regras básicas de convivência; e desagrada-me, aquela desobediênciazinha cobarde, porque sem consequências, e aquele desviozinho à norma e ao estabelecido para todos, que se limita a prejudicar um bocadinho os outros e a chateá-los, tão típico destes heróis do mar. O português, infelizmente, continua ainda, para os outros, demasiado parecido com a caricatura do que é ser-se português: uma criatura folclórica que come bacalhau e fala demasiado alto e que, na escala civilizacional, se situa um bocado acima de um marroquino, mas definitivamente abaixo de um espanhol.

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

fartinhos das filhozes oleosas e da gritaria da parentada?
Então fujam para uma qualquer divisão da casa que tenha televisão e liguem a dois: está a dar um documentário com Chico Buarque, À Flor da Pele. Neste momento, Caetano canta “Sem Fantasia” e eu sou uma mulher feliz à beirinha das lágrimas. Corram, incréus!

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Comam muito, comam demais; abracem os parentes que não suportam, e ainda mais os que adoram; encham os miúdos de presentes, excedam-se nos afectos, nos beijos, nos risos; atentem nas luzes, nas decorações das ruas, nos pinheiros que espreitam por detrás das janelas; atentem nos vossos e nos outros; deixem o trabalho para trás, façam ponte, gastem até ao último tostão do cartão, viajem, vejam filmes estúpidos em que as renas falam, cantem hossanas ao Senhor nas alturas; façam filhozes, façam filhotes, façam amor, tenham saúde. E um excelente Natal para todos, cheio de Paz. Muita Paz.

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

o novo mito urbano

Não nego que a ASAE aja por vezes com excesso de zelo; nem que algumas das normas europeias que obriga os outros a cumprirem, sejam idiotas e desnecessárias. Mas mais de metade daquilo que por aí se diz que aquela faz, é mentira (como algumas das coisas descritas por António Barreto no seu já famoso artigo). Pura e simples mentira. Tipo o caso das castanhas, da imposição dos assadores de inox e da proibição das listas telefónicas. A cada dia surge um novo absurdo supostamente imposto pela ASAE. Que ninguém confirmou in loco, embora toda a gente tenha um primo de um tio de um avô de um amigo que viu e que sofreu na pele os horrores da higiénica injustiça, coitado. A actuação da ASAE corre o risco de se tornar o mais sério mito urbano dos últimos anos, muito à frente daquela história dos amigos que dão boleia a um estranho e que chegam a uma curva onde aquele diz "Foi aqui que eu morri", após o que se despistam todos e fim. Já faltou mais, para começarem a correr vídeos no youtube que documentam as investidas selvagens dos danados dos inspectores sobre os comerciantes, essas vítimas inocentes cujo único interesse é trazerem a nós a tradição. Por acaso, este é um daqueles casos em que um bocadinho de objectividade até dava jeito.

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

"Pai, já sou ministro! amanhã vou debruçar-me sobre a questão dogmática do fim das penas e o reforço da tutela dos bens jurídicos fundamentais e propôr ali no parlamento umas alteraçõezitas ao código penal. Mas primeiro vou comer um bife, que o comboio deu-me fome. Dizem que há aqui em são bento um café que os faz a jeito. Já agora, agradece à mãe a taparuére com o cozido."

"Há ainda uma coisa que as pessoas não entendem em Portugal: quem organiza a justiça é o poder democrático, é o espaço público, somos nós, e não os especialistas. Quem faz as leis somos nós. Quem trabalha na justiça só tem de aplicá-las, e não tem de meter o bedelho na formulação das leis, e nem sequer devia meter o dedo na discussão sobre a organização interna da justiça. Isso cabe aos representantes eleitos."

(A culpa disto tudo é do Maradona, que me obriga a seguir as chatérrimas - embora educadas! - peixeiradas da Atlântico, onde depois - definitivamente contra a minha vontade, reparem - deparo com pérolas destas. Ainda por cima, com tanto liberalismo democrático apregoado a esmo e têm os comentários fechados, obrigando uma pessoa a vir para o seu próprio blogue gozar com eles. tá mal.)

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

hey there delilah

(quase Simon & Garfunkel. faltou-lhes um bocadinho assim)

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

os blogues do ano (I)

Vejo nas escolhas dos outros uma preocupação com o ser-se objectivo, com o mostrar que o que quer premiar (através do que se escolhe) é o mérito (da escrita, das ideias, da bagagem cultural, das opções estéticas). Há um cuidado nítido em obstar a acusações de amiguismo que possam indiciar o pagamento de favores ou, pura e simplesmente, manifestações de afecto. Quase já ninguém diz “Eu gosto deste blogue-moribundo-de-template-duvidoso-onde-se-escreve-sobre-física-quântica porque o autor é um grande amigo meu de infância.” Parece mal. Pois eu gosto em primeiro lugar dos blogues pessoais das pessoas que são minhas amigas. E dos blogues de algumas outras pessoas que eu gostava que fossem minhas amigas, mas que não são. E ainda, dos blogues de umas terceiras que, em não sendo minhas amigas e em eu até desconfiando que não gostam de mim nem eu delas, escrevem com originalidade e graça, sem me maçarem de morte (o que é difícil, convenhamos). E, por último, dos blogues de outras pessoas que nada me dizem de especial mas que objectivamente mexem comigo, seja lá de que maneira for (porque, por exemplo, me fazem rir, ou porque concordo geralmente com o que escrevem). Ah! E o meu outro blogue, claro!, o meu outro blogue: definitivamente, o melhor do ano, não me lixem.

dica jurídica da semana (II)

Se forem apanhados a conduzir e tiverem bebido pouco tempo antes, não requeiram a contra-prova. Isto porque o álcool demora algum tempo a entrar na circulação sanguínea e a espalhar-se pelo que, se fizerem, algum tempo mais tarde, outro teste, ainda se arriscam a que acuse um valor maior e depois é este que conta. Se já tiverem bebido há algumas horas, existe uma boa hipótese de o álcool já ter começado a ser expelido pelo organismo (que fica "limpo" ao fim de mais ou menos doze horas), pelo que, quanto mais tarde efectuarem o teste, maiores as probabilidades de ver o valor do primeiro teste, reduzido. (é claro que o melhor é sempre não beber de todo ou não conduzir, ponto - mesmo que depois de um só copo de tinto).

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Sob o nome pomposo de “ensaio”,
Maria Filomena Mónica (MFM) assina, na Revista Atlântico deste mês, um artigo sobre o universo das revistas cor-de-rosa, e no qual abundam números, comparações e mais números, numa abordagem superficial, típica de quem tem tanto nojo da coisa que lhe pega de pinças e a olha de longe. MFM debita uma série de banalidades, como a de que aquelas vendem "(…) imagens à volta das quais os leitores cristalizam sonhos (…)”, destinando-se a “(…) quem tem uma existência de tal forma oca que as “celebridades” são o único centro de interesse”. Aliás, poderia estar aqui a dissecar o artigo todo e a desfiar pérolas atrás de pérolas, como esta: “Em vez de pensarem nos filhos desempregados, nos maridos que as enganam, nos bairros onde vivem, nos transportes que utilizam, na curvatura da espinha a que são forçadas no trabalho, no tédio dos dias sem fim, as mulheres (…) sonham com gente bonita a viver entre candelabros que nunca se apagam”. Quer-me parecer que as operárias que curvam a espinha não terão dinheiro para gastar em revistas e que o conceito de tédio não será o que melhor se aplica aos seus dias, mas que sei eu. E já nem falo da desastrada tentativa de justificar porque, apesar da análise crítica que pretende fazer ao meio, também ela própria já apareceu por diversas vezes nas ditas revistas, que (claro) só a difamaram, as imprestáveis (será que MFM nunca ouviu falar no direito de resposta?). Mas o pior fica para o fim, com esta frase fatal: “As revistas cor-de-rosa podem distrair os leitores, mas jamais os consolarão, porque o consolo exige a verdade e não é esta que lhes é oferecida”. Nada de mais errado, credo: o consolo que estas revistas fornecem reside, precisamente, em estarem suficientemente longe da verdade para se tornarem apelativas. E não o são só, nem necessariamente, para quem tem vidas de merda: todos temos uma cabra voiyeurista dentro de nós, a saltar para que a deixemos sair, e uma bela e sumarenta revista cor-de-rosa permite que a dita escoiceie à vontade e se liberte, o que é bastante saudável. Pois é. Eu, não só leio revistas "cor-de-rosa", como as compro: são um belo interregno no exercício da minha profissão, feita de dramas humanos, raciocínios intrincados e palavras difíceis. E mais: quando o café da manhã se estende caridosamente a um galão e uma torrada, também marcham o 24 Horas e o Correio da Manhã. Tenho, obviamente, os meus limites, que são todas as revistas que só falam de novelas… pela simples razão de que não vejo nenhuma e não sei do que estão a falar. Mas voltemos ao artigo. O problema de MFM nem é tanto o de acertar ao lado (que acerta), mas mais o de não perceber (ou fingir não perceber) a realidade sobre a qual está a escrever. Parece a crónica de alguém armado em boi a olhar para um palácio e a fazer questão de não saber exactamente o que aquilo é. Ora, para se falar com alguma propriedade da questão, é preciso que, de alguma forma, se aprecie, mesmo que ao mesmo tempo se despreze, ironize e se goze.
Em primeiro lugar, quem compra uma revista cor-de-rosa tem sempre maldade no corpo (uma maldade crua e por polir, de manicura da Trafaria), um olho treinado para adivinhar os podres e uma má-língua em estado natural. O máximo conseguido por MFM, coitadinha, é uma boca (ui!) sobre Luís Filipe Menezes, “(…) o qual descobriu uma namorada na pessoa da eng.ª Maria Teresa Moas, a responsável, na Câmara de Gaia, pelo Departamento de Circulação Urbana e Transportes. A senhora tanto circulou que acabou por transportar o chefe.” (rir, portanto).
Segundo, o aspecto da fidelidade, fundamental para se perceber a constante atracção do fenómeno: eu, para poder constatar com um certo e indisfarçável triunfo que a elsa raposo está gorda, tenho que saber que ela já foi mais magra. E mais gira. Não vou, como é óbvio, gastar um euro e tal só para lançar um olhar acrítico sobre a figura da senhora, quando a vejo de abalada para Angola com o "namorado" e a dizer barbaridades como a de que vai fazer um grande "sacrifício" pelos filhos. Não: eu, atenta ao historial de miséria da criatura, sei que ela tem 3 filhos pequenos dos quais não tem a custódia. E que teve vários "abortos naturais", que não se cansou de carpir publicamente, de forma desbocada. Pensamento imediato: se acreditasse N´Ele, diria que Deus, às vezes, até sabe o que faz. E depois, rir-me-ia interiormente. Ou exteriormente, se tivesse alguém ao lado com quem partilhar a lúgubre chacota.
Este fim profilático, inerente às revistas cor-de-rosa, escapou completamente a MFM. Ou seja, que aquelas servem essencialmente para nós, mulheres (e alguns maricas) destilarmos o nosso fel natural contra as outras mulheres, sem chatearmos ninguém à nossa volta. É uma forma de podermos deixar em paz as amigas, as irmãs e as vizinhas e de com elas convivermos mais ou menos pacificamente. Até porque, felizmente, as ditas "colunáveis", quando não são objectivamente feias (as brasonadas são-no quase sempre, é um regalo), vestem-se-mal; já quando são giras e até têm bom-gosto, ou são burras ou não sabem representar, ou não sabem fazer nada na vida e subiram na horizontal. E não me venham com tretas: esta má-língua, não poucas vezes injusta e despropositada, é, de facto, consoladora. Quero lá saber de sonhar com "candelabros"! Eu divirto-me é a ver as mais recentes queimaduras químicas na cara do castelo branco, o qual, todo contente, se acha de novo com "pele de criança", chamem-me nomes. As revistas cor-de-rosa funcionam, para as mulheres, como os jogos de guerra para os homens: já que não podem sovar o vizinho, dar um tiro no chefe ou abalroar o carro do gajo que vai ao lado no trânsito, resolvem as pulsões agressivas na playstation3, e todos ficamos felizes. MFM, com os seus preconceitos de classe (operária = inculta; burguesa rica = inculta; eu = culta), limita-se a debitar clichés (talvez até com uma certa candura, admito) e passa completamente ao lado deste aspecto fundamental, que é o do apaziguamento momentâneo - mas eficaz - da cabeleireira invejosa que todas temos dentro de nós. O seu maior pecado foi, no entanto, o de me ter maçado de morte com tanta e desnecessária conversa.

A propósito, ler, aqui, uma perspectiva diferente, mais interessante e ainda por cima de graça, sobre a questão (é que paguei quatro euros pela menamónica, tenham lá paciência…).

dica jurídica da semana (I)

A partir de hoje uma nova série, tendencialmente semanal, onde irei contrariar o facto de o cidadão comum (ou seja, o leigo) ser muitas vezes apanhado desprevenido pelas minudências de uma Lei que não está obrigado a conhecer, pela simples razão de que ninguém a explica como deve ser. É imprimir e guardar, passe a imodéstia, porque vos pode vir a servir de muito, oié! Para começar, e porque é Natal, aqui vão duas fantástico-utilíssimas dicas de uma só vez:

1ª Se, por um infeliz acaso, a Brigada de Trânsito vos mandar parar para vos imputar a prática de uma contra-ordenação que acham que não cometeram, quando forem para a pagar (terão de o fazer, se não não saem dali), façam-no a título de pagamento da caução e não de pagamento da multa. Ou seja, ao assinarem o auto, botem a cruzinha onde diz “caução” e pronto. Isto porque se pagarem a multa, tal acto equivale a uma confissão dos factos, o que significa que, se mais tarde quiserem recorrer daquilo para um tribunal comum, não têm hipótese.

2ª Se, por um outro infeliz acaso, receberem em casa uma multa de trânsito para pagarem, mas com a qual nada tenham a ver porque relativa a um carro que já venderam mas que ainda está em vosso nome, têm quinze dias para enviarem a identificação do condutor e/ou actual proprietário do mesmo (está no verso do auto). Pode pressupor algum trabalhinho de detective mas vale a pena. É que, se não o fizerem, a lei pressupõe que eram vocês que iam a conduzir, o que significa que, se mais tarde quiserem recorrer daquilo para um tribunal comum, também não têm hipótese. Por hoje é tudo. Enjoy.

o pai natal não existe (II)

Numa revista "cor-de-rosa", um filho-família rodeado de sobrinhos na sua "quinta" setecentista, todos muito vincadinhos e penteadinhos, faz uma ousada afirmação de classe: "O Pai Natal é o empregado de Jesus". E - digo eu - aposto que trabalha a recibos verdes e não recebe horas extra, que é do povo, que gosta de couratos e de mines (basta olhar-lhe para a barriga) e que, na noite de Natal, entra, não pela chaminé, mas pela porta de serviço da "quinta" e come o leite e as bolachas na cozinha, sob o olhar desconfiado das criadas de roupão. Afinal, chacun a sa place.

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Está diferente, o Natal, não sei. Talvez pela bonança que se seguiu, pela presença subtil dos fantasmas do natal passado ou, pura e simplesmente, pelo cansaço físico que se exaure pelas pontas dos meus dedos. Cada vez mais, uma coisa que sinto, e menos uma coisa que digo. Cada vez menos importantes, o barulho das luzes, as compras e toda a parafernália estridente que acompanha a época. Na verdade, este é um Natal que não precisa de se chamado assim e que não carece de reconhecimento, porque eu já o sei: uma rampa para a renovação familiar e amorosa, com inclinação acentuada e derrapanço no final. Não me apetece as prendas, os coros, as filhozes. Apetece-me estar, ficar pela vizinhança, dispor do meu escasso tempo e partilhá-lo com eles; aliás, dar-lhes todo o meu tempo e gozar a mansa serenidade de os ter por perto, com saúde. E, vá lá, uma mágoa fininha por não ser crente e por não ver, no Natal, algo mais e de mais profundo do que esta pobre felicidade oblíqua, que me atravessa de igual modo o resto do ano, a cada vez que nos vejo à volta de uma mesa ou abancados num sofá que de tão usado já incorpora em si, como se assim viesse de fábrica, a forma dos rabos de cada um.

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

o pai natal não existe * (I)

Gosto pouco de partilhar as minhas pessoas com os outros.

* ou de como o Natal é uma forma de inocência tão facilmente perecível como qualquer outra.

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

já não é a primeira vez que tenho esta ideia:
a blogosfera devia quotizar-se e pagar ao maradona para escrever. Mas pagar à séria, para que ele possa comprar reservas de linces e de albatrozes e pagar a criadas que lhe cozam a pescada com o esparguete, e a tipas giras que lhe dêem muitas massagens para que jamais se sinta gordo e nunca fique triste. Pensando melhor, não há dinheiro que pague expressões como “marmotas de estimação”.
só mesmo por esta mulher

... é que eu punha um toureiro neste blogue.

Muitos PARABÉNS, minha querida, pelos quatro anos de blogue (e desculpa o atraso, sabes como sou). O teu blogue não é mais um: é O BLOGUE, o primeiro e dar de comer e beber a todo o grelame que para aqui andava, em busca de identificação e de uma certa maneira de dizer as coisas. Pode, aliás, dizer-se que a tua maravilhosa escrita (para mim e para muita gente), é como pão para a boca. Ainda por cima, é um blogue sincero, desbocado, bondoso, inteligente e muito boa onda: tal como tu, aliás. Oié! :)

P.S. E fica sabendo que és a única escritora de quem guardo, cá em casa, três exemplares do mesmo livro, em sítios diferentes, não vá o diabo tecê-las. Ganda beijão!

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

O que cada um de nós pensa de Saramago é irrelevante. É irrelevante, por exemplo, eu escrever que gostei de alguns livros dele, de outros não, e que a maioria nem sequer li. A opinião dos críticos, embora pese um bocadinho mais do que a minha, também não importa por aí além. Da mesma forma, não interessa especialmente que ele pense que Portugal devia ser anexado por Espanha. Se calhar, devia. Ou não. É a opinião dele; acha que Espanha é um país melhor, por várias razões. Se calhar, até é. Para ele, deve ser. É, igualmente, de pouca monta, o que o senhor pensa sobre Cavaco, a Ministra da Cultura, o partido comunista, ou os outros partidos ou governantes em geral. Interessa, a quem se interessar pela opinião dele. Saramago ganhou o Nobel e é, por isso, maior do que ele próprio (um senhor velhinho, um bocado truculento e de ideias fixas) e, num certo sentido, é maior do que este país mesquinho que não lhe liga nenhuma por ele dizer mal e lhe ter virado costas. É claro que os espanhóis, espertalhões e oportunistas, peritos na auto promoção e em se rodearem dos bons por forma a parecerem melhores, capitalizam (e muito) com este desprezo nacional para com Saramago. E são sempre os primeiros a chegarem-se à frente nas homenagens, desdobrando-se em familiaridades e encómios múltiplos, aproveitando para manifestar estranheza e incredulidade quanto à indiferença do seu país de origem perante a genialidade do escritor. Acho isto um bocadinho patético. Portugal tinha – oficialmente - a obrigação de ser maior do que a irrelevância a que se reduzem as escaramuças infantis entre Saramago e alguns políticos e agentes culturais, e devia tratá-lo nas palminhas, dando-lhe as atenções, as recepções e as comendas que costuma guardar para os jogadores de futebol.
tesão e azevias

Ainda a propósito, aqui vai o repost de um texto já dos antigos, especialmente dedicado a uma queridíssima amiga que diz que o mesmo lhe dá tesão (de que género, não sei). Um grande jingobé para ela!

"Provaram a massa: ele achou-a boa de sal, ela, que estava insossa; juntaram-se as línguas por uma questão de tira-teimas; ele duvidou da consistência dos filhozes, achou-os massudos; ela, espalhou a massa entre as pernas e disse-lhe que experimentasse outra vez e que, por via das dúvidas e de caminho, visse se lhe faltava abóbora. Depois, como achasse os coscorões doces demais, sacudiu-lhes o açucar em excesso no peito dele e lambeu-o de cima a baixo, que na natureza nada se perde. Ele, mortinho por experimentar o recheio do peru (receava pelo excesso de aguardente e que pedisse mais pinhões), mas o papo do animal não fora devidamente trabalhado, faltava-lhe o debulho; então, ele recheou-a a ela e provou-a, rindo-se ambos à perspectiva de idêntico lambuzanço de outros orifícios (estes mais abençoados), por parte das tias velhas na noite da consoada, longe estas de imaginar o alcance das sessões de prova. Afinal, estava perfeito, o recheio, estava no ponto - aliás, estavam os três no ponto: ela, ele e o recheio. Nos entremeios, ela corria para o fogão, a mexer o grão misturado com o açúcar, o limão e o pau de canela, desconfiada da costumada excelência das azevias, com tanta interrupção delambida. Para mais, ele vinha-lhe por trás, levantava-lhe o avental, agarrava-a pela cintura e mordiscava-lhe, à vez, os lóbulos das orelhas, a curva enfarinhada do pescoço e os frutos cristalizados, com que ia coroando o bolo rei. Num outro bico do fogão, cozia a massa dos sonhos que ela tentava, em vão, descolar das paredes do tacho, quase esturro, culpa de um sorver mais prolongado num recanto da sua anatomia, para aferir da fluidez e do travo a laranja da calda de açucar. Chegou a vez de ele bater os ovos para as rabanadas; era sempre ele, nas rabanadas. Costumava dizer, a meter-se com o feminismo empinado dela (próprio de quem não tem razões de queixa), que fazer rabanadas era coisa de macho, porque isto de amaciar pão duro com açucar e gemas batidas, dando origem uma delícia comestível, era, no fundo, o que os homens faziam às mulheres. Ela fingiu-se ofendida e virou-lhe as costas, passando-lhe os tarecos e os ingredientes para trás, sem o olhar; depois, voltou-se, rodeou-lhe a cintura nua com o avental e deixou-o virar a cozinha do avesso (como fazia com ela), tendo o cuidado de se abster de brincadeiras de pele durante a fritura. Na noite aprazada, estava tudo delicioso, diziam-lhes, e eles sorriram-se, pois claro, como é que poderia não estar, afinal, o ingrediente secreto que nos faz a todos lamber os dedos, chorar por mais e ser felizes a espaços, não é, seguramente, um qualquer cardamomo da costa do Malabar. O ingrediente secreto é (o) outro."

Domingo, Dezembro 02, 2007

No Brasil, dizer que fulano ou sicrano é um tesão, não tem um significado tão, digamos, intenso, como em Portugal. É um adjectivo bom, bonito e corriqueiro, que passei a usar quando acho que alguém é especialmente propenso a ele.

Fiquei a pensar nisto. Mais de cinco minutos, aliás. Parece que faz sentido, tesão como adjectivo, e ainda por cima masculino: afinal, a etimologia aponta para firmemente distendido ou rígido. Por cá, tesão não é adjectivo que qualifique o entusiasmo por algo ou alguém: é, antes, um substantivo que define um estado, uma sensação. Não especialmente bonita, nem corriqueira. Aqui, uma pessoa não é um tesão; antes, tem-se tesão por essa pessoa. O ser objecto da tesão do outro não resulta de uma apreciação quase, quase, objectiva (enfatizada, aliás, pelo uso do verbo ser) mas de uma mais íntima e subjectiva, e daí o verbo sentir: eu tenho, eu sinto, tesão. E é feminina, claro. Só por isto, já não poderia ser coisa leve, boa ou apreciativa; a tesão daqui é interior e complicada, é chata e pesada; é uma espécie de incómodo, a aplacar ou a enxotar de vez. Está perto da emoção, e daí o rebuço em confessá-la. Já aquilo a que chamamos de tesão intelectual, de intelectual não tem nada. É, sim, coisa de bicho, que se sente pelo intelecto do outro. Coisa de bicho, sim, que nos inquieta e comicha mesmo que o outro seja marreco e coxo. Um intelecto tesudo manifesta-se na conversa, na escrita e, não obstante, sentimo-lo entre pernas e nos desvios de ar quente. Não é uma mera constatação, a tesão lusa: é uma manifestação física que pode ter consequências futuras, como bebés ou providências cautelares a impedir aproximações a menos de cem metros. No fundo, o tesão é fácil e inconsequente; é, obviamente, um pito de homem aos saltos - fácil de falar, de brincar, de exorcizar e vencer. Já a tesão, é coisa de pipi que acorda do seu sono de beleza e se humedece, envergonhado e constrangido, a disfarçar o alto que se notaria no meio das calças, se o tivesse. Neste caso, a palavra não só é mais poderosa do que a espada, como é mesmo mais poderosa do que um vibrador com três velocidades e marcha atrás. Por isso, é-me um bocadinho difícil, entender isso do Pedro Mexia, embora concorde com o amigo dele: o que escreves dá ponta. Ponta e ficamos por aqui. Assim me livro de ter de optar por um dos géneros (e é que, a ter de escolher, nem Houaïss nem acordo ortográfico me salvariam este pipi fescenino, e depois toda a gente ficaria a saber).

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

she seemed so glad to see me

I just smiled.

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

o forward da nicinha

Tolhida entre o ensino do português num liceu problemático, as reuniões do condomínio e a selecção dos bifes da pá, Teresa chegava a casa e, imediatamente antes de Pedro entrar pela porta, sublimava o seu tédio de mulher demasiado casada em textos sobre amores que não vivera. Num bloguezinho intimista, forrado a ais e a uis, comprazia-se anonimamente na descrição de emoções universais que por todos distribuía, generosa - e que a todos cabiam que nem uma luva. Aos poucos, textos seus começaram a ser citados, reproduzidos e enxertados aqui e ali; e chegaram até ao Brasil, copiados em páginas brilhantes e animadas com fadas, duendes e espíritos pagãos. A propósito de Brasil: nicinha era brasileira. Percorria o corredor entre a recepção e o WC dos funcionários com trejeitos sambistas e sotaque de rica de novela, embora fosse na verdade do nordeste, lá para os lados do Piauí, mais virada para o forró e o enrolar arrastado das consoantes. No escritório, todos os homens queriam a nicinha, com aquele seu riso tímido de personagem boa que sempre vence no final, e uma bunda - essa sim, carnavalesca! - que todos imaginavam forrada a plumas, paetês e purpurinas. Mas nicinha, desde que ali chegara, só tinha olhos para Pedro. Ah, o Pedro. Português sóbrio com ar de compromisso, como só o português sabe ter, aquele charme quase europeu de homem sério, e que vivos rumores diziam ser controlado por uma mulher gárgula, assustadora e possessiva. Mesmo assim, a nicinha resolveu seduzir o Pedro, afinal, ainda está para nascer português que resista ao cerco cerrado de brasileira, para mais uma de ciclópica bunda e olhos pequenos de carneiro mal-morto, genuinamente apaixonada e compenetrada da sua paixão. De dentro do balcão da entrada, por cima do tampo quase ao nível dos seus olhinhos de índia, nicinha vigiava Pedro, trespassando os vidros entre eles, e conhecia-lhe de cor os modos. Sabia que, quando começava a tremer a perna esquerda, estava a ficar precisado de ir lá fora fumar; que, quando agarrava o cabelo com a mão e o repuxava para trás num gesto rendido, era com a mulher gárgula que estava a falar e que, quando esfregava os olhos lá pelas onze, era hora de ela lhe levar o nespresso, antecipando-se-lhe. Começou por mails inofensivos, algumas piadas brejeiras mas sem descambar, e uns pensamentos em power point sobre a inevitabilidade do amor, com Vinícius em fundo e umas frases do Paulo Coelho. Ele chamava-a para agradecer, polido, ou acenava brevemente a cabeça do outro canto do open space, e então o coração de nicinha esvoaçava e batia, desnorteado, contra o tampo de madeira falsa que a rodeava e prendia. Pedro, de olho na promoção, mantinha a distância, a competência e o respeito, e fitava-lhe os olhinhos pequenos com condescendência quase paternalista, como se ela uma adolescente enfatuada e um pouco iludida. Na verdade, sonhava acordado com aquela bunda emplumada só para ele e o risinho a transbordar de praia e mar. Foram-se tendo assim por uns tempos, à boca da secretária dele, por cima do balcão dela ou quando se cruzavam entre portas. Às tantas, nicinha resolveu subir a parada e atreveu-se a imagens mais explícitas, de conteúdo muito gráfico, reproduzindo-se em posições inusitadas e chamando os bois pelos nomes. Pedro dizia que sim, que talvez, que não, que era casado e amava a mulher. Nicinha tentou de tudo: decotes muito reduzidos, anedotas indecentes, fotos dela em poses sugestivas, agora uma alça do soutiã, depois um mamilo espetado, por fim, a bunda escarrapachada na lente. Mas Pedro, apesar dos ligeiros roçagares um pelo outro, continuava a agradecer gentilmente o nespresso, a fumar sozinho na varanda e a repuxar para trás o cabelo ao telemóvel: aflito primeiro, apaziguado depois, a despedir-se da gárgula com um sorriso manso. E nicinha roída, enciumada de uma mulher que não conhecia, invejosa dela e do seu poder amoroso. Resolveu jogar sujo, dar o tudo por tudo e, sabendo-o sensível e letrado, vai de lhe atirar com poesia e prosa poética, com tudo o que de massacrado e de profundo lhe vinha parar às mãos. Um dia recebeu um texto. Um daqueles que vêm em corrente, perdidos na origem e de autor desconhecido, que é de todos e não é de ninguém. Leu aquilo de uma vez e um formigueiro acorreu-lhe aos dedos como se os tivesse fechados há horas; sentiu a alma tão vasculhada por dentro que até chorou. Era exactamente o que sentia por Pedro: um desespero doentio, os ciúmes da legítima que com ele partilhava a cama, os filhos, o corpo e a escova de dentes. Era aquela, a raiva que a invadia a horas mortas quando o sonhar já não chegava e a crueza do dia lhe surgia pelas frestas do estore do apartamento alugado, deixando antever os baldios separados por caniçais. Era aquele, o fogo que a trepava quando adivinhava que outra o acordava com um beijo e lhe escolhia a gravata com que ele lhe chegaria nessa manhã, pronto para mais um namoro discreto entre emails, biombos e vidros, para mais um cafezinho às onze, tirado por antecipação. Resolveu, numa afoiteza súbita, fazer-lhe um forward do texto. Já está, agora, ele vai perceber o que eu sinto, vai dar valor. Entretanto, já em casa, Teresa, roída por idêntico sentimento, resolve vasculhar a privacidade virtual de Pedro. A palavra passe é de certeza qualquer coisa com o nome do cão da família e a sua data de nascimento, ou vice-versa (Pedro é signo Leão, está no centro do mundo e ama com magnanimidade os animais que se lhe submetem e que o adoram, como é o caso). Não tardou a entrar na caixa pessoal daquele e logo o nome no remetente, nicinha, que associou a perfume barato e a colegial atrevida, lhe chamou a atenção. Com avidez nervosa e a nuca suada, carregou para abrir e, numa bonita font arrial narrow, viu o seu texto, aquele que havia escrito cerca de um mês antes num acesso de tragédia e perante o avassalo de um ciúme daninho. Em anexo, uma foto de nicinha, de olhos sumidos e boquinha de broche, com o fio dental enfiado nas carnes da pomposa bunda, equilibrada no parapeito descascado da marquise e recortada na paisagem triste do subúrbio, com a linha de Sintra em fundo. Na mão, um coco de plástico ganho numa promoção de Verão e uma palhinha rosa, por onde nicinha fingia sugar qualquer coisa evidentemente fresca e muito tropical. Teresa pasmou, incrédula. O texto dela, deambulando anónimo e reeenviado pela nicinha tropical de plástico para o seu Pedro! Aquilo que ela, Teresa, não fora capaz de lhe dizer na cara e que por isso despejara no mundo, chegava-lhe a final pelas mãos de alguém que era o motivo e a razão abstracta que a levara a escrevê-lo. Porque, era um facto: entalada entre as aulas, as reuniões e os bifes da pá, e de costas viradas para Pedro quando este chegava a casa, Teresa tinha pavor das nicinhas deste mundo.

Terça-feira, Novembro 27, 2007

pois eu gosto da ASAE
e não concordo, nem com as acusações de excesso de zelo, nem com as vozes de indignação generalizada. Ou há moralidade, ou comem todos. Donde, em havendo moralidade, não deve comer nenhum. A moralidade, neste caso, traduz-se na simples aplicação da lei, independentemente de a quem tal chateia, incomoda ou prejudica (subjectivamente falando, claro). Uma lei que visa proteger-nos, a nós, consumidores (repito: a nós, consumidores). E que deve ser aplicada sem excepções. Eu até entendo esta inquietação, de urbanos asseados que somos, apreciadores da “tradição” e do “típico” de fim-de-semana. Só que a tradição é algo, por definição, muito antigo e assim, referindo-se geralmente a quando as pessoas e as coisas mal se lavavam, a desinfecção era um conceito desconhecido e as salmonelas, uma série de sintomas desagradáveis sem um nome específico. Eu não me importo, e até agradeço, que as bolas de Berlim que, na minha infância, eram passeadas ao sol de Verão dentro de cestos abertos, hoje me sejam entregues com pinças, de dentro um recipiente refrigerado; nem que fechem a ginginha, um sítio bedunguento onde se roçavam os bêbados e os drogados que infestam o Rossio, e que só era very tipical, basicamente, para os incautos turistas, que ali sentiam frémitos com o atrevimento de partilharem os hábitos sujos dos nativos (a propósito, ler este post , com o qual discordo em absoluto); que fechem temporariamente o Galeto porque tem baratas na cozinha ( e que se mantém ainda hoje o melhor e mais útil restaurante de Lisboa); que as castanhas sejam assadas em fornos bonitos de inox e servidas num papel limpinho; que os ciganos engordem um bocadinho menos à conta do desplante e da violação indecente dos direitos de autor de quem faz roupas e filmes; nem que o dono de um restaurante tenha de apresentar facturas de compra e transporte dos bens que adquiriu (com as respectivas datas) e que me pretende servir - a mim -, de forma a que eu saiba que não estou a comer perca do Nilo em vez de cherne. Se, com isso, não puder servir os grelos que plantou no quintal nem fritar os ovos das suas galinhas do campo, azar: este é um mal menor, é o preço a pagar pela lisura das relações entre os agentes económicos. Além de que, se os outros profissonais da restauração servem ovos estrelados e grelos salteados sobre os quais pagaram imposto, porque razão hei-de eu (que pago ao Estado até quando como) contribuir para alimentar uma economia paralela que beneficia apenas alguns? Por isso, não: não me importo, e até prefiro. Gosto da ASAE e, para mais, trabalho diariamente com os seus inspectores: não vejo na sua actividade nenhuma cruzada fundamentalista, mas apenas uma eficiência empenhada que não olha a quem nem faz distinções. Coisa a que este Portugal, meio badalhoco e um bocadinho feudal (e que ainda vê os privilégios de alguns como coisa natural), não está habituado.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

eu, se tivesse um restaura